Tenho certeza de que apenas os monges zens budistas, os praticantes fiéis de Vipassana, os Iluminados,  estão prontos para a morte. Porque nós, mortais comuns, que tentamos e tentamos sermos melhores a cada dia (e às vezes não conseguimos) somos ainda muito apegados à tudo o que vemos e amamos.

 Semana passada, descobri que não estou preparada para a morte. Não mesmo. E muito menos preparada para me redimir da  impotência diante da vida. Semana passada, eu fugi da morte.

Há 15 dias, mudamos para uma casa. O dono do apartamento que eu morava, pediu o imóvel e como amo morar em casa, alugamos uma bem pertinho das escolas das crianças, o que vai facilitar e amenizar muito a nossa vida.

 Por causa dos gatinhos, Mimi e Squizou, coloquei tela na casa inteira e com a ajuda de uma amiga, até no portão. Eu estava certa de que estava fazendo tudo certo. Afinal, sou uma leõa para defender os meus. (me esqueço que mesmo as leoas, perdem os seus.)

 Segunda Feira. Todas as crianças com os seus pais. E são nesses dias, que aproveito para trabalhar, trabalhar e trabalhar.

 Casa “blindada”, janela e portas abertas. A corrente de vento era uma delícia, enquanto eu trabalhava. Sentia e ouvia os gatinhos perto de mim, porque, comprei coleiras com gizo e plaquinhas de identificação com nome e telefone de casa, caso eles fugissem. Ou seja, me cerquei para não sentir dor.

 Agradeci em silêncio. Pela coragem de estar onde estava e pela saúde dos meus pequenos.  Escutei um grito de gato. Pensei: “algum gato brigando na rua”. E continuei os meus afazeres. Precisava ir perto de casa, pagar uma pessoa. Quando saí, coloquei a Mimi pra dentro, que estava estática no portão olhando para a rua e conversei com ela: “Cadê o seu irmão?” E achei estranho ele não estar com ela. Quando fechei o portão e juro que vi ele na janela da sala.  Ao atravessar a rua, um carro parado. A moça me disse: “atropelaram um gatinho e ele deve ser de alguma casa, porque está com a coleira”. Pensei: “não é o meu. ele está em casa.”  Mas não consegui chegar muito perto. Não vi o Squizou. Fiquei cega por alguns segundos. E ela pegou a coleira do chão. E me deu na minha mão.  Eu não pude acreditar!!! O Squizou morreu. Atropelado. Ali na minha frente. E eu não vi. Fiquei na rua, andando de um lado para o outro, sem saber o que fazer. Ela me disse que ele respirava um pouco, agora não mais. Liguei para os últimos numeros que estavam no meu celular. Não sabia o que fazer. Não estava preparada para a morte. Lembrei que tivemos um final de semana especial. Só Squizou e eu. Como uma despedida. Ele passou dois dias grudados em mim. Dormimos de conchinha. Brincamos. Fiz um book dele no Instagram. Mal sabia eu, era a nossa despedida. Chamei a Sônia, nossa ajudante. Tive uma crise de choro. Toquei nos vizinhos. Tive outra crise de choro. Não consegui chegar perto dele. Tadinho. E quando cheguei, não era mais o nosso gatinho. Era um gato de olhos e bocas abertos. Daí veio a culpa. De não pega-lo no colo. A culpa de não ter colocado a tela até o teto. A culpa da culpa. E as crianças, meu Deus! E as crianças? O que vou contar, como vou contar? Como vai ser? E foi... Enterramos o Squizou, eu, a Sônia e os vizinhos. Rezei. Pedi perdão. Pedi forças. Pedi proteção. Agradeci por estar sozinha em casa. Por ter poupado as crianças dessa cena triste. No dia seguinte, dei um jeito de ficar sozinha com cada um deles. E foi duro contar. Foi triste. Nenhum de nós estávamos preparados para passar por isso. Não foi planejado. Não é certo. Não estamos preparados para a perda. Cada um reagiu do seu jeito. Conheci a carinha de susto e tristeza de cada um dos meus pequenos. Um rostinho nunca visto, novo pra mim. Gaia, a primeira a saber, se assustou. Chorou pouco. Ficou preocupada com o Levi – o gato era dele. Levi, perdeu o seu filho. Chorou sentido. Sentiu muito. “Meu Deus, Meus Deus” ele dizia.  Quiz voltar para escola e ganhar um abraço dos melhores amigos. Fez desenho. Escreveu cartas e espalhou pela vizinhança: "Gato atropelado". Fizemos um altar com a foto do Squizou e uma imagem de São Francisco de Assis. Me fez prometer que vamos pedir uma lombada na frente de casa para a prefeitura. E ficou preocupado com o Theo, que aprendeu a gostar do Squizou. Theo, se revoltou, não queria conversar sobre o assunto. Chorou. Se trancou no quarto. Me culpou.  Só à noite, conseguimos conversar. Choramos juntos. Ele sonhou com gatinho. Sofri por mim e por cada um. E pela Mimi,  que miou sofrida procurando pelo irmão. O sofrimento deles duraram horas. Intenso, mas foram 24 horas. Revelamos algumas fotos e hoje fica a saudade e já o planejamento de um outro gatinho, um dia, quem sabe. Crianças sofrem o presente e olham pra frente. Não se apeguam no passado. Um beleza de tanto aprendizado. A dor nos deixou mais fortes. Somos gratos, Squizou por tanta fofice e diversão. Desculpe, pela minha impotência.  Boa volta pra casa. A gente vai ficar bem e você faz parte de nós.

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