Há alguém em algum lugar esperando por você

Renata Quintella e a conexão do Instituto A Nossa Jornada

Nos preparamos para o encontro.

No instante em que se deixa a ordem de cama, travesseiro dobrado e cobertor, para deixar os primeiros raios de sol iluminarem o quarto ao abrir a janela, uma vontade intrínseca de mergulhar no universo do outro, reina.

 O leite quente matinal é um convite para ir até o quintal para sentir os primeiros ventos passarem para acender as reflexões diárias.

A dúvida paira diante de toda serenidade e confiança plena.

Sabíamos que Renata Quintella, teria uma cândida história para contar.

Papel em branco como quem aguarda uma informação importante. Canetas suficientes para o imprevisto de muitas palavras ou falha na escrita. Gravador limpo para receber nova história.

Todos estão organizados na bolsa de bolinhas brancas e vermelhas, para receberem o próximo causo, o próximo fato, a próxima narração detalhada de um protagonista.

 Próximo passo: Lapa.

O que esperar de alguém que nos chama para tomar café em sua própria casa? É como se a melhor amiga nos convidasse para um lanche da tarde.

 

***

 

No trem as coisas acontecem como diariamente, pessoas reagem a cada suspiro, alguns conversam, outros permanecem tentando manter um silencio contínuo.

 

Baldeações.

Ruas movimentadas.

Por todo lado tem uma história ambulante dentro de um corpo.

 

Próxima estação: Lapa.

Desembarque pelo lado direito do trem”.

A porta se abre.

Nas próximas ruas, o sol nos segue debaixo do telhado azul do mundo.

Nas mãos, suor.

Triiiiim, o dedo aperta a campainha.

Recepção.

Número do andar. Ajeitamos nossos cabelos e assuntos bagunçados.

A porta se abre duas vezes.

 

* * *

À diante, um coração de pano com algumas fitas coloridas penduradas - fazem companhia para ela, a mulher que nos espera.

No rosto, um sorriso.

Existe cor na porta, no rosto, nas pontas dos cabelos e ao longo de seus braços.

Ela está de lado e eu consigo ler “ quem tem amor tem coragem”, estampado em um braço florido.

─ Paulinha? Estava te esperando. O porteiro me disse que vocês haviam chegado. Fiquem à vontade!

Finalmente a calma: pela tatuagem e pela generosidade

 

* * *

Andreza tropeça ao cruzar a porta, é como se naquele momento ela estivesse entrando em um outro universo. Os olhos grandes percorrem os próximos cômodos, ela olha para trás me procurando.

Paula fica para trás para fechar a porta. Ela parece calma demais, mas passamos juntas por debaixo do apanhador de sonhos da sala.

 

* * *

Em palavras, ela nos leva para o interior de São Paulo, uma cidadezinha chamada Batatais, com cerca de 56 mil habitantes.

Seus pais hoje são separados.

Luiz, está no interior, estes dias ele a ligou para contar uma novidade,

─ Filha, estou vendendo acessórios em pontos estratégicos da cidade. Eu percebi que é melhor. As mulheres sempre estão nas portas dos supermercados.

Ela sorri.

─ Meu pai é praticamente um empresário.

Vera morou em Batatais por muito tempo, mas já se mudou. Renata conta com orgulho que sua mãe era professora da Febem e que ela era praticamente a mãe de mais umas 150 crianças.

Renata fez cursinho para estudar em uma universidade de qualidade, um dia ela sonhou em ser médica, mas mudou-se para São Paulo para entrar na Escola de Comunicação e Artes da USP, formou-se em Artes Cênicas.

 Fez peças de teatro, algumas bem importantes.

Viajou para fora do Brasil apenas uma vez, mas ri contando que foi com dois artistas globais.

Entrou para duas novelas na rede Record.

 Vivia na ponte aérea Rio, São Paulo. Entrava no avião, chegava no estúdio, colocava maquiagem, arrumava o cabelo, se aprontava com o figurino. Ação!

Dizia basicamente três palavras.

 

Tirava figurino, maquiagem, corria para o aeroporto.

 

Fez alguns trabalhos em comerciais e em revistas.

 

Do artístico, foi para o comercial.

 

Na transição, ela resolve contar um caso:

A minha vida é uma coisa engraçada, eu fui quase médica, quase atriz e quase famosa. Uma vez eu estava na farmácia, com muita vontade de ir ao banheiro e perguntei para a atendente se não podia utilizar, ela disse que não. Eu estava quase fazendo nas calças, quando olhei para o lado vi que tinha uma revista de cachorro, lembrei que eu estava naquela revista. Eu a peguei, abri na página e mostrei para a mulher. Falei para a moça que era eu alí e aí sim eu pude usar o banheiro. Hoje eu digo: Se tem uma porta que a fama me abriu, foi com certeza, a porta do banheiro.

As três riram dos imprevistos e encaixes que a vida faz.

 Seu telefone toca, ela pede para aguardar e vai para a cozinha conversar no telefone.

 

* * *

 

Neste momento a gente se olha, Andreza ainda observa a disposição dos móveis. Ela passa a mão pelos cabelos.

 

─ Ela gosta de arte né? Olhamos os livros por sobre a mesa.

─ Os filhos também! Rimos ao ver um desenho da família sustentado por balões em um desenho na parede.

 

Diante da Paula, uma rede estendida, lembro como é bom ficar tranquila em uma tarde de quinta-feira. O sol e o vento se encontram lá fora. Hoje é um típico dia preferido dela.

 

Lá fora as plantas insistem em dançar para fazer companhia para as bandeirinhas de festa junina ainda penduradas na grade de proteção.

Estariam as bandeirinhas querendo voar?

 

Ela volta trazendo bolachinhas e chá.

 

* * *

Hoje, com 43 anos ela é palestrante, roteirista, diretora artística e fundadora do Instituto A Nossa Jornada, este projeto teve início lá em 2013.

 

Renata sempre foi uma pessoa que gostava de ajudar as pessoas, mas fazia isso em silêncio. Um dia houve um chamado que não sabia o que era, mas sabia que precisava fazer o bem e registrar.

 

Ela contou para os amigos mais próximos, mas a maioria achou tudo uma loucura e que as pessoas pediriam a ela coisas absurdas, impossíveis de se conseguir.

 

─  Todo mundo só precisa de uma pessoa que acredite na sua vontade, se uma pessoa além de você acreditar, é quase impossível não dar certo.

 

Saiu nas ruas com a pergunta “O que eu posso fazer por você agora? ”

 

A primeira pessoa que ela abordou foi com uma flor na mão, Sr. Genário desconfiou da ação, mas disse que levaria a flor para a mulher dele. Eles eram casados há quase 70 anos e durante 30 minutos, ficou contando a história dele.

Naquele momento ela descobriu que o que ele precisava era exatamente aquilo.

 

O nome “A jornada” se deu já na primeira vez que ela foi às ruas, quando começou em uma praça e terminou o dia na mesma praça, cantando parabéns para uma outra Renata, que estava grávida (com gravidez de risco) e longe do marido.

─ Uma jornada é quando você sai de um ponto, passa por diversas transformações e volta para o ponto inicial, transformada e querendo fazer algo melhor.

Todos temos a nossa jornada.

 

Tecemos vínculo, mantemos conectadas. Em silêncio ela nos olha como quem precisa dizer algum segredo importante.

 

* * *

─ Faço isso pelos meus filhos, quero deixar um legado para eles. Fazer algo diferente onde estou e para quem está próximo de mim. Hoje eu sou a maior ‘pidona’ do Brasil e eu consigo tudo o que eu peço.

 

Ela para de repente e dá espaço para o vento passar pelo rosto e pelo cabelo.

 

O pulmão incha.

 

─ Eu acredito que todos podem fazer algo por alguém. A sensação que tenho é de acender uma centelha de luz dentro das pessoas e quero que todos sintam isso.

 

Dos olhos dela, o choro. A emoção.

Desta história, o amor que sustenta a sinceridade de uma história viva, construída diariamente.

 

─ Sempre tem alguém em algum lugar esperando para te oferecer aquilo que você precisa, o que eu tento fazer é conectar pessoas – e consegue.

 

***

 

A conexão acontece.

 Theo, Levi e Gaia dividem com o mundo o cuidado de Renata, ela é como Vera, quando cuidava de crianças lá atrás.

 

A Jornada de Renata Quintella é uma corrente do bem realizada na internet, é uma forma de fazer com que a ajuda espontânea chegue a quem precisa.

 

Existe uma rede de generosidade sustentada por um tanto de amor e dedicação.

A Jornada é a força de fazer o bem, por meio de redes sociais, planilhas, ofertas e pedidos de ajuda.

 

Uma luz que se acende no momento que você se dispõe a olhar para o outro com uma perspectiva diferente.

 

Se acende quando você decide mergulhar em um outro universo, que não é o seu.

 

É amor e um tanto de coragem, que faz com que outras luzes se acendam junto com a sua.

 

E agora?

 

O que eu posso fazer por você?

Ou prefere, neste momento, oferecer ajuda?

 

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O Instituto A Nossa Jornada é um projeto que acontece em sua maioria na internet, todos os meses pelo menos uma pessoa é ajudada por meio da corrente do bem, feita pela ONG.

Renata Quintella recebe e pede ajuda através do seu site e das redes sociais.

 

 

 

 

 

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